
Por Cicero Rodrigues*
Titivillus é um demônio medieval. Isso mesmo, você não leu errado, medieval. Como é possível um demônio medieval, se supostamente eles seriam mais antigos que este período da história e se a literatura e cultura que produziram a ideia dos demônios remonta a um período muito distante da Idade Média?
Mas Titivillus ocupa-se mesmo é em ser uma inovação dentro da inovação, se isso é possível, claro. A humanidade em algum momento observou a necessidade de registrar com símbolos gráficos ideias, histórias, conceitos, lendas e mitos. Se os mitos podem ser pensados como uma inovação nas narrativas humanas, criar símbolos que permitissem seu registro seria o passo seguinte dessa inovação, sem necessariamente desfazer-se da oralidade. Aliás, essa inovação permitiria que autores, no isolamento de seus escritórios silenciosos, criassem histórias que trazem luz à imaginação humana. Assim temos um feito grandioso e uma inovação revolucionária.
Mas aí uma questão é: como replicar essas histórias – essas ideias – e torná-las acessíveis com cópias que não apresentem erros? Como garantir que cópias feitas à mão não produzam erros, incorreções ou algumas imprecisões? O que já é bem difícil considerando apenas fatores humanos.
A escrita como ferramenta de comunicação humana é um aparato tecnológico muito antigo. Mas com o passar do tempo, escrever à mão e fazer cópias desses textos passou a enfrentar a questão dos erros ortográficos que apareciam em muitas cópias, e mesmo a invenção da imprensa não consegui eliminar o problema, sendo ainda possível pensar que de algum modo isso foi potencializado, pois com os tipos móveis os erros e imprecisões seriam distribuídos em uma escala maior.
Uma malandragem (ou uma inovação, para continuar usando a linguagem de mercado) foi a ideia de assinalar esses erros como sendo ações de Titivillus sobre o ofício de escritores, copistas e impressores. Veja, a menção mais antiga a Titivillus é de 1285, uma inovação para a arte da escrita, mas enquanto personagem um invento jovem, considerando outras figuras de destaque da literatura que menciona esses seres, a saber Belzebu, Lúcifer, Diabo, Satanás.
Aliás, todas essas figuras rendem milhões para a indústria do entretenimento, para a indústria cultural e para a indústria da fé. Esta última inclusive tem vários episódios em que Titivillus lhe plantou alguma de suas peças, fazendo publicar textos com imprecisões e erros divertidos. Titivillus é ao mesmo tempo uma ficção e um divertido matreiro.
*Cicero Rodrigues é diretor de arte e ilustrador.
