
Tem uma coisa que a polissemia pode emprestar aos negócios – como valor, e como característica –, que é o sentido daquilo que se tornou múltiplo, diverso, adaptável ou mesmo cambiável. A ideia da polissemia de uma palavra pode ser usada para pensar sobre um negócio, sobre a possibilidade de um empreendedorismo polissêmico, e uma dessas palavras a gente pode conectar com a história e a cultura. Vamos tentar.
A palavra cafarnaum (assim mesmo grafada em minúsculas) é um ótimo exemplo. Cafarnaum, originalmente se refere a uma antiga cidade da região da Galileia – Cafarnaum, com maiúscula. Historiadores indicam que a cidade provavelmente foi fundada no II século antes de Cristo, mas ao longo do tempo a palavra ganhou o curioso sentido figurado de “confusão”. Artigos de jornais literários e autores consagrados, como o Machado de Assis, a empregam com esse sentido de confusão, desordem, bagunça. Em Machado, “cafarnaum” aparece, por exemplo, no romance Quincas Borba (publicado pela primeira vez em 1891). Se você quer a citação do Machado – lá vai, ela está no Capítulo CXXVII de Quincas Borba: “...uma confusão de línguas, um cafarnaum de chapéus, de malas, cordoalha, sofás, binóculos a tiracolo, homens que desciam ou subiam por escadas para dentro do navio, mulheres chorosas, outras curiosas, outras cheias de riso...”
Aliás, palavras são um negócio com o qual as empresas sempre precisam lidar, atribuindo a elas significados diretos e simbólicos, para posicionar suas marcas, produtos e serviços. Quanto mais amplo o significado de algo, maiores suas possibilidades de venda e alcance de público. Negócios e produtos podem ser polissêmicos como as palavras e até virarem sinônimo de uma categoria de produtos. Conseguir esse feito é entrar para a cultura popular.

Quem nunca disse a frase “não é assim uma Brastemp!”, usando a marca Brastemp como referencial de qualidade? Na mesma linha, também se usa a expressão “não é essa Coca-Cola toda!” para indicar que para algo ser considerado bom ou excelente, precisa do nível de qualidade e reconhecimento popular que esse refrigerante tem. Esses são usos polissêmicos de “Cafarnaum”, “Brastemp” e “Coca-Cola”.
Se um dia seu negócio ou produto atingir o nível de polissemia que “cafarnaum” (inicialmente nome de cidade dos tempos bíblicos), atingiu e entrou para a literatura clássica, você terá realizado um grande feito com sua ideia de negócio.
Vale lembrar que há outras cidades que poderiam ser citadas aqui, pelo fato de seus nomes terem ganhado sentidos polissêmicos diversos, mas isso fica para outra conversa.
