Pesquisa inédita desenvolvida no Brasil utiliza impressão 3D para reproduzir alimentos de origem animal a partir de ingredientes vegetais e abre caminho para novos mercados, dietas especiais e soluções sustentáveis
Da Redação com Agência Brasil

Se alguém dissesse há poucos anos que seria possível produzir um filé de salmão sem peixe, caviar sem ova ou anéis de lula sem que uma única lula fosse retirada do mar, provavelmente a ideia seria recebida com desconfiança.
Mas foi exatamente isso que pesquisadores brasileiros conseguiram fazer.
Em um laboratório da Embrapa, em Brasília, uma equipe de cientistas passou os últimos dois anos e meio desenvolvendo alimentos produzidos por impressão 3D capazes de reproduzir não apenas a aparência, mas também características nutricionais e sensoriais de produtos tradicionalmente associados à proteína animal.
O resultado é uma inovação que chama atenção tanto pelo aspecto tecnológico quanto pelo potencial de impacto econômico e social.
Os primeiros protótipos já existem. Entre eles estão filé de salmão, caviar e anéis de lula produzidos a partir de ingredientes vegetais cuidadosamente selecionados para reproduzir composição, textura e sabor semelhantes aos alimentos originais.
Mais do que uma curiosidade de laboratório, o projeto coloca o Brasil em uma discussão que mobiliza centros de pesquisa e empresas de tecnologia alimentar em diversas partes do mundo.
O trabalho foi desenvolvido pelo Laboratório de Nanobiotecnologia (LNANO), da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia.
A pesquisa parte de uma pergunta simples: seria possível criar alimentos de base vegetal capazes de entregar uma experiência próxima daquela proporcionada pelos produtos de origem animal?
A resposta parece ser positiva.
Para alcançar esse resultado, os pesquisadores desenvolveram formulações especiais compostas por proteínas vegetais, farinhas de leguminosas, óleos vegetais e de algas, corantes naturais, espessantes e outros ingredientes que funcionam como uma espécie de "tinta alimentar" utilizada pelas impressoras 3D.
A tecnologia permite combinar esses componentes em camadas, reproduzindo formatos e estruturas bastante complexas.
Mas o desafio não era apenas visual.
Os cientistas também buscaram equilíbrio nutricional, aproximando os teores de proteínas, carboidratos e gorduras daqueles encontrados nos alimentos que serviram de inspiração para os protótipos.
A corrida global por proteínas alternativas deixou de ser tendência para se tornar realidade.
Nos últimos anos, consumidores passaram a buscar opções alimentares associadas a práticas mais sustentáveis, preocupações ambientais, bem-estar animal e hábitos de vida considerados mais saudáveis.
Nesse cenário, surgiram startups bilionárias, novos modelos de negócio e investimentos cada vez maiores em tecnologias capazes de reinventar a forma como os alimentos são produzidos.
É justamente nesse universo que a pesquisa brasileira se insere.
Embora ainda esteja em fase experimental, a tecnologia abre espaço para diferentes aplicações comerciais no futuro, desde restaurantes especializados até a produção em escala industrial.
O desenvolvimento também cria oportunidades para o surgimento de novos negócios ligados às chamadas foodtechs, empresas que unem alimentação, ciência e inovação.
Uma solução para diferentes perfis de consumidores
Outro aspecto que torna a pesquisa particularmente interessante é sua capacidade de atender públicos bastante diversos.
Vegetarianos e veganos aparecem como os beneficiários mais óbvios, mas estão longe de ser os únicos.
A tecnologia também pode contribuir para pessoas com restrições alimentares específicas, além de permitir a criação de alimentos enriquecidos com nutrientes direcionados a determinados grupos populacionais.
Em um país que ainda convive com desafios relacionados à insegurança alimentar, a possibilidade de desenvolver produtos nutricionalmente ajustados chama atenção dos pesquisadores.
Trata-se de uma ferramenta que, no futuro, poderá ter aplicações que vão muito além do mercado gourmet ou de nichos de consumo.
A Embrapa e sua capacidade de reinventar o impossível
Ao longo de sua história, a Embrapa ajudou a transformar o Brasil em uma potência agrícola mundial.
Foi a instituição que contribuiu para adaptar culturas a diferentes regiões do país, impulsionou ganhos de produtividade e ajudou a tornar áreas antes consideradas improdutivas em importantes polos agrícolas.
Agora, a empresa mostra que também está de olho nos desafios das próximas décadas.
Parte dos ingredientes utilizados na pesquisa foi obtida nos Bancos Ativos de Germoplasma da própria Embrapa, um dos maiores acervos de recursos genéticos do país.
É desse patrimônio científico que surgem alternativas capazes de ampliar as possibilidades da alimentação humana.
O trabalho desenvolvido pelo LNANO reforça uma característica que acompanha a instituição desde sua criação: a capacidade de antecipar cenários e buscar soluções para problemas que muitas vezes ainda nem chegaram ao mercado.
Ainda não existe previsão para que os alimentos desenvolvidos pela Embrapa cheguem às prateleiras.
Mas o simples fato de a tecnologia já ter produzido protótipos funcionais e aprovados em testes iniciais mostra que estamos diante de algo mais do que uma experiência curiosa de laboratório.
A impressão 3D de alimentos pode parecer distante para a maioria das pessoas hoje.
No entanto, muitas das tecnologias que fazem parte da rotina atual também pareciam improváveis quando surgiram.
Talvez seja cedo para afirmar que salmão vegetal, caviar produzido em impressoras e frutos do mar sem mar farão parte do cardápio das próximas gerações.
Mas uma coisa é certa: enquanto muita gente ainda tenta imaginar como será a alimentação do futuro, pesquisadores brasileiros já começaram a construí-la.
