
A pergunta parece até curiosa, pois é tão simples afirmar que é égua, sem imaginar como se deu o feminino égua em português. A questão não é afirmar que é égua, mas entender: por que o feminino de cavalo é égua, e não cavala?
Sabe-se que a língua portuguesa provém do latim vulgar, por conseguinte o seu vocabulário também é originário dessa variante latina, com um total cerca de 80% do léxico. Mas nesse universo de 80%, também há palavras de origem erudita, ou seja, palavras que vieram diretamente do latim clássico para o português. Há um “sistema econômico-linguístico” curioso que permite que os idiomas sejam enriquecidos com palavras, termos e expressões adquiridos de parceiros comercias e das diversas interações sociais e culturais. Um verdadeiro “sistema de trocas”, em que as partes negociam mercadorias, mas que tem como lastro para as negociações a mais importante das moedas: as palavras. É com elas que cavalos e éguas são negociados e produzem ganhos e avanços econômicos, tanto localmente, quanto globalmente.

Se você ainda está curioso, aqui vai uma informação adicional: enquanto no latim clássico, o termo corrente para designar cavalo é Equus. Essa forma clássica para designar cavalo foi substituída por caballus. Diante disso, há, no português, palavras derivadas dessa forma latina, como por exemplos: equino (adjetivo relativo a cavalo) e o substantivo equinocultor (aquele se dedica à equinocultura, ou criação de cavalos, atividade inclusive muito lucrativa). Essas formas portuguesas remetem à presença de termos vindos do latim para língua portuguesa e que servem para nomear a todo um setor da economia dedicado à criação cavalos e éguas. Vale lembra também que o setor automobilístico “tira proveito” da herança latina na língua portuguesa quando mede em “caballus” a potência do motor dos carros.
Aqui vale dizer que para a palavra égua permaneceu a forma do latim clássico equa, cujo ‘q’ latino se transformou em ‘g’ português. Como na economia e no mundo dos negócios, os idiomas são adaptáveis para se adequarem às demandas e exigências de cada época, porque idiomas são organismos dinâmicos que se mantêm em movimento e participam da dinâmica do desenvolvimento humano.
Cavala: uma curiosidade bônus (bônus é palavra latina)
O termo cavala também é registrado no dicionário de Aurélio Buarque de Holanda como feminino de cavalo (Rio de Janeiro, 1999, p. 433): cavala. [Do lat. tardio caballa fem. do latim cavallus...]; cavala [Fem. de cavalo]. Já no dicionário de Luiz Antonio Sacconi o vocábulo cavala é registrado como peixe marinho, mulher bela e feminino de cavalo (São Paulo, 1996, p.149): cavala s. ep. (a) 1. Peixe marinho; 2. s.f.(a) cavalo; 3. pop. mulher extremamente bela, formosa e atraente; tigresa; avião.
Diante das uma “economia das palavras latinas legadas à língua portuguesa”, argumento que palavra tem conexão íntima com negócios e crescimento econômico, porque tudo começa com as palavras e toda negociação se faz a partir do uso delas.

Essas curiosidades são bem interessantes, pois nos distraem e nos instruem!
Achei o artigo muito interessante, principalmente por partir de uma pergunta aparentemente simples para explicar aspectos importantes da formação da língua portuguesa. A discussão sobre as palavras “cavalo” e “égua” mostra que a língua possui uma história e que muitas palavras que utilizamos diariamente carregam marcas de diferentes épocas e transformações.