Iniciativa articula bancos públicos e estados para transformar projetos estratégicos em crédito, impulsionar a reindustrialização e reduzir desigualdades no Nordeste
Da Redação*

As primeiras contratações da Chamada Nordeste devem ser efetivadas até junho de 2026, marcando um avanço concreto em uma das maiores iniciativas de mobilização de investimentos da história recente da região. O anúncio foi feito durante reunião do Comitê Regional de Instituições Financeiras Federais (Coriff), realizada na sede da Sudene.
A expectativa, segundo a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, é que ao menos um projeto por estado seja aprovado ainda no primeiro semestre, sinalizando a transição da fase de planejamento para a execução dos investimentos.
Lançada em maio de 2025, a Chamada Nordeste foi estruturada para conectar grandes projetos estratégicos a fontes de financiamento, especialmente por meio de bancos públicos como BNDES, Banco do Nordeste e Banco do Brasil.
O objetivo central é claro: viabilizar investimentos estruturantes capazes de impulsionar o desenvolvimento econômico, reduzir desigualdades regionais e fortalecer a base produtiva nordestina.
A iniciativa atua como uma ponte entre o setor produtivo e o sistema financeiro, organizando projetos com potencial de impacto em escala e oferecendo suporte técnico para que se tornem financiáveis.
A procura superou amplamente as expectativas iniciais. A demanda registrada foi 11 vezes superior ao volume de recursos previsto, evidenciando tanto o potencial econômico reprimido quanto a necessidade de instrumentos mais eficientes de financiamento na região.
Ao todo, foram selecionados 189 projetos estratégicos, que somam R$ 113 bilhões em investimentos potenciais — um volume capaz de gerar efeitos significativos sobre emprego, renda e dinamismo econômico.
Para dar maior agilidade ao processo, os projetos foram organizados conforme o nível de maturidade:
53 projetos já estão em estágio avançado, prontos para estruturação financeira;
146 iniciativas ainda passam por aprimoramento técnico e modelagem.
Além disso, foi implantado um sistema de monitoramento contínuo, com acompanhamento conjunto das instituições financeiras, garantindo maior fluidez na tramitação e reduzindo gargalos históricos no acesso ao crédito.
O modelo também combina atuação direta dos bancos com operações indiretas, por meio de instituições parceiras, ampliando o alcance do financiamento.
Os projetos selecionados estão concentrados em áreas consideradas prioritárias para o futuro da economia nordestina:
Transição energética
Hidrogênio verde
Bioeconomia
Data centers verdes
Setor automotivo
Esses segmentos refletem uma estratégia voltada à inovação, sustentabilidade e reindustrialização, posicionando o Nordeste em cadeias produtivas mais sofisticadas e alinhadas às tendências globais.
Crédito como desafio histórico
Apesar do volume de projetos e do interesse do setor produtivo, o acesso ao crédito ainda é um dos principais entraves ao desenvolvimento regional.
Representantes dos governos estaduais destacaram que o desafio agora é garantir que os recursos cheguem com rapidez aos empreendimentos selecionados, superando barreiras burocráticas e limitações estruturais do sistema financeiro.
A atuação coordenada entre Sudene, Consórcio Nordeste e bancos públicos busca justamente enfrentar esse gargalo.
Outro eixo estratégico discutido foi o turismo, responsável por cerca de 10% do PIB regional.
Para 2026, estão previstos:
R$ 1,7 bilhão via Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE)
R$ 850 milhões pelo Fundo Geral de Turismo (Fungetur)
Além da ampliação do crédito, será realizado um roadshow regional, com o objetivo de apresentar linhas de financiamento e estimular novos investimentos no setor.
Também está em elaboração um estudo para mapear gargalos e identificar oportunidades prioritárias dentro da cadeia do turismo.
Na área social, o BNDES destacou a seleção de 394 projetos voltados à ampliação de serviços públicos. No entanto, um entrave relevante persiste: apenas 107 municípios nordestinos possuem classificação de capacidade de pagamento (Capag) suficiente para contratar financiamentos.
Esse cenário evidencia a necessidade de soluções complementares para ampliar o acesso ao crédito público, especialmente em cidades com maior vulnerabilidade fiscal.
A Chamada Nordeste entra agora em sua fase mais decisiva: a transformação de projetos em contratos e, posteriormente, em investimentos concretos.
Com forte articulação institucional, grande volume de recursos e foco em setores estratégicos, a iniciativa tem potencial para redefinir o padrão de desenvolvimento do Nordeste, combinando crescimento econômico com redução de desigualdades.
Se bem executada, poderá consolidar um novo ciclo de investimentos estruturantes na região, com impactos de longo prazo sobre competitividade, inovação e inclusão produtiva.
*Ascom Sudene
